Toda vida humana é marcada por uma jornada. No caso do paciente oncológico, essa caminhada costuma ser vivenciada por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), desde os primeiros sintomas, passando pelo diagnóstico, até o tratamento. É um percurso que não se faz em um único dia, mas ao longo de meses — e, muitas vezes, anos.
A chefe de cozinha Adriana Maria Ribeiro Barros percorreu essa trajetória ao enfrentar o câncer de mama, mantendo a cabeça erguida e encarando o processo como um verdadeiro renascimento. “Minha história começa com uma pontada nos seios. Diante desse alerta, comecei a sentir dor e fui realizar exames de ultrassonografia das mamas e mamografia. Precisei procurar um mastologista em junho de 2012. Eu tinha uma rotina de autocuidado, me alimentava bem e praticava exercícios, mas a doença me pegou de surpresa”, relatou.
Na época, aos 40 anos, a profissional — hoje formada em Gastronomia — viveu um intenso processo de descoberta e enfrentamento. “Eu só queria tratar a doença. Senti como se o mundo tivesse desabado. Vieram a dor, a angústia, e a tecnologia ainda não era tão rápida como hoje. Também não tinha interesse em pesquisar sobre o assunto. Passei pela cirurgia e pelas sessões de quimioterapia. Comecei a perder o cabelo e não entendia por que precisava passar por tudo aquilo”, contou.
Durante o tratamento, Adriana enfrentou náuseas, mal-estar e falta de apetite. “O maior desafio é a primeira sessão de quimioterapia. Ao longo do processo, você se sente fraca, dolorida, abatida. Tive acompanhamento de uma equipe multidisciplinar, com psicóloga, fisioterapeuta e nutricionista. Recebi todo esse amparo e fui agraciada com sessões de tratamento sem interrupções”, explicou.
Ela ressalta que a quimioterapia, além de combater as células cancerígenas, também afeta as células saudáveis, comprometendo a imunidade do paciente. “Você sente que deixa de ser você mesma. Por isso, contei com o apoio da psicóloga, da minha filha e de toda a minha família. Tenho sete irmãos, somos muitos, e todos sofreram juntos — com a dor, com as agulhas, com cada etapa do tratamento. Chega um momento em que é preciso encarar a realidade e aceitar para seguir em frente”, ressaltou.
Renascimento
Após enfrentar o primeiro grande desafio de sua vida — a quimioterapia —, Adriana percebeu ser possível renascer. “Meus ciclos variavam entre 21 e 28 dias de quimioterapia. Busquei aprender com tudo. O processo é doloroso, mas o melhor momento foi quando meu cabelo começou a crescer novamente. Ali senti que estava vivendo de novo, voltando, nascendo outra vez. Você se transforma. A mulher que enfrenta o câncer de mama renasce. Quando olho para o meu passado, parece que não fui eu quem viveu aquilo, que não fui eu quem teve câncer”, relatou.
Ela lembra que, em muitos momentos, nem se dava conta de que estava em tratamento. “Eu sempre chegava ao hospital arrumada, com bolsa, dirigindo. Não sentia dor de cabeça. Sinto-me agraciada, porque tive muitas vitórias. Consegui me formar e, aos 50 anos, entrei para a faculdade. Quando faço aniversário, comemoro duas vezes e tenho ainda mais vontade de viver. Meus planos são continuar trabalhando, viver de forma mais saudável, com alegria e paz, além de viajar para a Europa”, contou otimista.
Para Adriana, o sonho da faculdade parecia distante, mas, mesmo cansada, saía do trabalho direto para estudar. “Encarei a doença positivamente. Ninguém acreditava que eu tivesse passado por tudo isso. Nunca fiquei de cama, e muitos nem acreditavam que tive câncer. Era um fardo, mas eu sabia que venceria. Deus me preparou para receber essa prova e me deu força para superá-la. Acreditei no milagre. Fui como a mulher que tocou as vestes de Jesus. Todos os dias, Ele me ensina que sou vencedora, e sigo acreditando”, afirmou.
Durante o tratamento, ao buscar a orientação de um nutricionista, Adriana percebeu que as marmitas saudáveis fariam parte de sua rotina. “A partir dali, comecei a praticar o autocuidado e a entender mais sobre alimentação. Houve restrições alimentares durante o tratamento, e hoje levo comida natural para as pessoas em casa. A alimentação é a base para o bem-estar, inclusive durante as sessões de quimioterapia”, explicou.
Vencedora do câncer, Adriana segue produzindo marmitas saudáveis, com proteínas, legumes e carboidratos. “Minha rotina inclui ajudar meu marido na oficina, ir à academia, cumprir compromissos na igreja que frequento e também no Instagram, onde exponho hábitos de alimentação saudável e a prática de exercícios físicos. Os desafios sempre virão, mas é preciso ter autoestima, alegria e fé. Não podemos deixar que as dificuldades nos abalem”, concluiu.

Dia de doar
Além de influenciar seus seguidores das redes sociais com alimentação saudável e exercícios, a chefe de cozinha participou no ano passado da campanha “Dia de Doar”, movimento mundial que celebra a cultura da generosidade. Lançada pelo Araújo Jorge – Hospital de Câncer, em Goiânia, teve como objetivo reunir influenciadores do bem para arrecadar recursos para a construção da Unidade de Pronto Atendimento aos pacientes oncológicos do SUS.
Muito feliz por participar da iniciativa do hospital a qual realizou seu tratamento, Adriana incentiva as pessoas sobre as doações. “O hospital sempre precisa de doadores que ajudam de uma forma ou de outra. Também estive aqui iniciando meu tratamento. Sabemos que muitos profissionais buscam melhorar o atendimento desde a entrada até a consulta com o médico no consultório. Recebi acolhimento e motivarei as pessoas todos os dias”, destacou.
Há 17 anos na instituição, a supervisora administrativa do Setor de Voluntariado do Araújo Jorge, Adriane Rodrigues, conta que iniciou sua trajetória na Central de Doações. “Fui operadora de telemarketing e solicitava contribuições para o hospital, tanto de pessoas físicas quanto de empresas, destinadas à manutenção da instituição e ao custeio do tratamento de pacientes com câncer. A cultura da doação deve ser cultivada desde a infância. Na minha família, fomos criados com essa prática. Mesmo tendo pouco, minha mãe sempre nos ensinou a dividir e a olhar com atenção para quem está ao nosso redor”, relatou, destacando a importância do ato de doar.
A profissional explica que a doação vai muito além do recebimento de itens destinados à assistência dos pacientes. Ela também se manifesta por meio do trabalho voluntário, no qual cada pessoa oferece o que tem de melhor, que é o tempo, a escuta ativa, o afeto, as orações e acolhimento, promovendo a humanização durante o tratamento. “Atualmente, são 16 projetos que envolvem cerca de 250 voluntários, que doam seu tempo de segunda a segunda. São pessoas que respiram amor e transformam o ato de doar em cuidado”, frisou.

Atendimento de necessidades
Adriane afirma que o trabalho voluntário é um dos gestos mais bonitos que existem, pois envolve pessoas que se doam e se entregam para atender às necessidades de quem muitas vezes nunca viram. “Não há ganho financeiro nem retorno de imagem. O que percebo é que as ações realizadas preenchem cada voluntário de uma forma única. A sociedade brasileira é solidária, e as pessoas são estimuladas a doar. Aqui em Goiás, gostamos de acolher e receber”, destacou. Segundo ela, a cultura da doação está enraizada não apenas entre pessoas mais velhas ou aposentadas, mas também entre os jovens.
“É fundamental querer cuidar do outro. Vivencio diariamente a convivência com pessoas verdadeiramente boas, dispostas a abraçar a dor alheia e a compartilhar de diversas formas, seja com a entrega de um chá, de um sorriso ou de um produto de higiene. Os voluntários são anjos que cuidam de anjos. Muitas pessoas têm amor guardado e disponível para ser doado”, afirmou. Adriane também ressaltou que empresas, escolas, igrejas e a sociedade em geral podem se mobilizar para realizar doações. “Valorizamos cada contribuição que recebemos, porque sabemos a diferença que cada uma faz e o impacto que gera na vida das pessoas”, concluiu.
Importância de parcerias
O assistente administrativo Cícero Martins atua na captação e consolidação de parcerias no Araújo Jorge. “Ao dialogar com as empresas, mostro a importância do hospital como referência no tratamento oncológico e como as parcerias contribuem diretamente para a continuidade do atendimento aos pacientes, além de evidenciar as dificuldades enfrentadas pela unidade de saúde”, explicou.
De acordo com Martins, as empresas que aderem à causa filantrópica demonstram um forte compromisso com a responsabilidade social. “Apresento de forma transparente os desafios financeiros e operacionais da instituição. Essas empresas que contribuem são estratégicas para a manutenção do hospital”, destacou.

Caminho pelo voluntariado
A voluntária, recepcionista e estudante de Serviço Social Deborah Rabello Limongi iniciou sua trajetória no voluntariado ainda na infância, a partir de uma experiência familiar vivida em 1984. Naquele ano, sua irmã caçula passou por uma cirurgia cardíaca em São Paulo e retornou com sequelas. Anos depois, em 1990, a escola onde a irmã realizava fisioterapia foi fechada, o que motivou a mobilização de familiares e da comunidade.
Diante da situação, a mãe de Deborah idealizou a criação de uma escola voltada para crianças com necessidades especiais, iniciativa que marcou o início do envolvimento da família com ações sociais. A partir desse projeto, a equoterapia foi implantada em Goiânia. Segundo Deborah, as demandas da irmã a levaram, desde cedo, a reproduzir atividades realizadas por profissionais como psicólogos e fonoaudiólogos, para garantir a continuidade do aprendizado.
Em outro momento de sua vida, Deborah enfrentou um desafio relacionado à saúde da filha. Sem diagnóstico definido inicialmente, ela relatou que fez um propósito pessoal de abandonar o consumo de álcool e cigarro. Posteriormente, a criança foi diagnosticada com epilepsia. A experiência contribuiu para que, em 2011, Deborah decidisse intensificar sua atuação no trabalho voluntário.
Desde então, ela passou a colaborar com o Araújo Jorge, referência no tratamento oncológico em Goiás, além de atuar frequentemente em abrigos de idosos. Para Deborah, o voluntariado está diretamente ligado ao cuidado com pessoas que querem ser ajudadas. “Sempre procuro ajudar pacientes com câncer, idosos ou crianças. A necessidade deles me incomoda e me mobiliza”, afirmou. A recepcionista destaca que o trabalho voluntário representa uma fonte de realização pessoal. “Gosto do que faço, me sinto viva e realizada. Isso sim é felicidade”, concluiu.

Fotos: DCM/Araújo Jorge