Há mais de duas décadas, a psicóloga Damaris Morais, voluntária do Araújo Jorge – Hospital de Câncer, descobriu que a vida, às vezes, muda de rumo sem aviso. Em 2000, tornou-se ostomizada devido a retocolite ulcerativa.
Com a bolsa coletora vieram perguntas, medos e um mundo novo de adaptações. O que ela não imaginava é que aquela cicatriz também abriria caminho para que sua história se entrelaçasse com a de centenas de outras pessoas.
Hoje, aos 60 anos, Damaris lança a 8ª edição do livro “Mulher com ostomia: você é capaz de manter o encanto”. A obra nasceu como uma cartilha simples, com fotos feitas pelo próprio filho. “Naquele momento, as fotos pediam palavras e as palavras pediam histórias. Deus soprou o conteúdo nos meus ouvidos em dois dias”, relembra.
Ao longo dos anos, o material cresceu, ganhou novas vozes e rostos. Assim, a cada edição, mais mulheres, e, recentemente, alguns homens, passaram a compartilhar suas experiências, inclusive em um espaço especial chamado “Cantinho dos Rapazes”.
Com isso, o que era cartilha tornou-se um livro robusto, feito a várias mãos. Em suas páginas, o leitor encontra orientações práticas sobre higiene, vestuário e lazer; relatos pessoais de superação; artigos de profissionais de saúde; entrevistas sobre luto e adaptação; e até um breve histórico das Associações de Ostomizados no Brasil.
Damaris destaca que seu objetivo nunca foi vender o livro, mas oferecê-lo como presente a quem precisa. “Quero que, ao abrir o livro, a pessoa encontre não só respostas, mas também esperança. Que perceba que é possível viver bem, com qualidade, beleza e alegria”, afirma.
Por isso, a distribuição é gratuita em versões impressas, PDF e em sites de instituições confiáveis, como a Associação Brasileira de Colite Ulcerativa e Doença de Crohn (ABCD) e o próprio Araújo Jorge. A versão digital está disponível na Amazon para Kindle por R$ 5,99 – valor simbólico para alcançar locais onde ela não poderia chegar pessoalmente.
Ponte contra estigmas
A ostomia, abertura no abdômen para a saída de fezes ou urina, ainda enfrenta estigmas e desconhecimento. É aí que o livro se transforma em ponte, pois ensina a trocar a bolsa, cuidar da higiene, vestir-se com conforto, aproveitar o mar ou a piscina e, sobretudo, recuperar a autoestima. Para Damaris, trata-se de uma “cirurgia da vida”. “Médico nenhum faz porque quer, mas porque é necessária para salvar. Quando a gente aceita, aprende que ela pode ser uma nova chance de viver”, diz.
O projeto também é fruto da solidariedade, pois dezenas de pessoas doaram fotos, histórias e até recursos para viabilizar a impressão. Ao longo de 25 anos de voluntariado, Damaris viu uma mudança significativa, de uma época em que poucos ostomizados mostravam o rosto, para um tempo em que mulheres exibem a bolsa com orgulho e coragem.
Em síntese, a oitava edição do livro é um mosaico de coragem. Cada página reafirma, de um jeito ou de outro: “Você não está só”. Talvez esse seja o maior presente que um recém-ostomizado possa receber: a certeza de que, embora o corpo tenha mudado, a vida não perdeu seu valor nem seu encanto.

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